Hunter x Hunter: como funciona o arco da Eleição do 13º Presidente?

Depois de uma batalha contra as Formigas Quimera que colocou o mundo de Hunter x Hunter de cabeça para baixo, a Associação Hunter precisava lidar com outro problema: escolher quem ocuparia o lugar de Isaac Netero.

É assim que começa o chamado Arco da Eleição do 13º Presidente da Associação Hunter, uma das partes mais diferentes de Hunter x Hunter. Em vez de uma nova aventura cheia de batalhas, Yoshihiro Togashi transforma a história em uma espécie de thriller político, misturando votação, regras eleitorais, manipulação, alianças, discursos e candidatos que parecem estar jogando um jogo completamente diferente dos demais.

E existe uma curiosidade interessante para quem acompanha política: embora o sistema da Associação Hunter seja obviamente fictício, várias de suas ideias permitem comparações com mecanismos eleitorais reais, especialmente com Brasil e Japão.

Não existe confirmação de que Togashi tenha criado o arco diretamente inspirado no sistema político japonês. Mas, considerando que o autor é japonês e constrói uma eleição cheia de regras, múltiplas rodadas, disputas internas e estratégias entre candidatos, os paralelos são bastante interessantes.

O que é o Arco da Eleição de Hunter x Hunter?

O Arco da Eleição é o sexto grande arco de história de Hunter x Hunter e acontece imediatamente após os acontecimentos do arco das Formigas Quimera.

Com a morte de Netero, a Associação Hunter fica sem seu presidente. Os Zodíacos, grupo formado pelos principais membros da organização, precisam então organizar uma eleição para escolher seu sucessor.

O problema é que ninguém ali parece particularmente interessado em tornar o processo simples.

De um lado está Pariston Hill, o vice-presidente de Netero, um candidato extremamente inteligente e imprevisível. Do outro estão nomes como Cheadle, Ging, Leorio, Mizaistom e diversos outros Hunters.

O resultado é uma eleição que se transforma em um verdadeiro jogo psicológico.

Quem pode votar na eleição?

A primeira grande diferença em relação a uma eleição brasileira comum é justamente essa: todos os Hunters são candidatos e eleitores ao mesmo tempo.

Ou seja, não existe uma separação convencional entre quem disputa o cargo e quem apenas participa da votação. Cada Hunter pode concorrer à presidência e também votar em outro candidato.

Ao todo, 661 Hunters participam da eleição.

Essa regra já cria um cenário bastante diferente do que estamos acostumados a ver no Brasil. Aqui, uma pessoa pode ser eleitora e também candidata, mas são papéis distintos dentro do processo eleitoral. Na Associação Hunter, os dois papéis praticamente se sobrepõem.

As regras da eleição

As regras propostas para a eleição são responsáveis por transformar o arco em um enorme experimento político.

  1. Todos os Hunters são candidatos e eleitores.
  2. O candidato precisa alcançar a maioria dos votos. Caso contrário, uma nova votação é realizada.
  3. A eleição é refeita se a participação for inferior a 95%.
  4. Todos os votos precisam ser identificados. Votos sem o nome do eleitor são anulados.
  5. Ging assume inicialmente a função de presidente da comissão eleitoral.

Perceba como essas regras já criam duas preocupações diferentes: quem recebe mais votos e quantas pessoas efetivamente participam.

Isso é importante porque Pariston rapidamente percebe que a eleição não precisa ser vencida apenas através de popularidade. É possível manipular o próprio funcionamento do processo para criar situações favoráveis.

Hunter x Hunter e o sistema eleitoral brasileiro

A comparação com o Brasil fica interessante principalmente quando falamos sobre maioria absoluta e segundo turno.

Nas eleições brasileiras para presidente, governador e prefeito de municípios com mais de 200 mil eleitores, o candidato precisa obter a maioria absoluta dos votos válidos. Se ninguém conseguir esse resultado no primeiro turno, os dois mais votados disputam um segundo turno.

O princípio é relativamente parecido com o que acontece na eleição Hunter: se ninguém alcança a maioria necessária, o processo continua.

A diferença é que a Associação Hunter leva essa ideia muito mais longe. Em vez de simplesmente colocar dois candidatos frente a frente depois de uma primeira votação, a eleição possui várias rodadas e pode continuar enquanto nenhum candidato satisfizer as regras estabelecidas.

Na prática, é como se Togashi pegasse a lógica de uma eleição majoritária e transformasse o processo em um gigantesco jogo de resistência política.

Mas existe uma diferença enorme: a participação

Outra regra chama bastante atenção: a votação precisa alcançar 95% de participação.

Se isso não acontecer, a eleição é anulada e uma nova votação precisa ser realizada.

Esse mecanismo não corresponde diretamente ao funcionamento das eleições brasileiras. No Brasil, o comparecimento às urnas possui regras próprias e o voto é obrigatório para grande parte do eleitorado, mas uma eleição não é simplesmente anulada porque uma determinada porcentagem de pessoas deixou de votar.

Por isso, dentro da lógica de Hunter x Hunter, a participação eleitoral se transforma em uma arma estratégica.

Quanto mais complicada fica a disputa, mais importante passa a ser convencer os Hunters a votar.

E onde entra o Japão?

É aqui que o arco fica particularmente interessante.

O sistema político japonês também trabalha com diferentes mecanismos de representação. A Dieta Nacional, o parlamento japonês, possui duas casas: a Câmara dos Representantes e a Câmara dos Conselheiros. Na Câmara dos Representantes, existem tanto distritos de cadeira única quanto representação proporcional.

Isso significa que a política japonesa também combina diferentes formas de transformar votos em representação.

O sistema da Associação Hunter, naturalmente, não reproduz esse modelo. Mas existe uma semelhança conceitual interessante: a eleição não é apresentada como uma simples disputa entre duas pessoas.

Existem vários candidatos, diferentes posições, regras específicas, alianças, estratégias e mudanças constantes na distribuição dos votos.

Em outras palavras, Togashi transforma a eleição em um sistema onde entender as regras pode ser tão importante quanto conquistar votos.

Pariston: quando conhecer as regras vale mais do que ganhar votos

Pariston é provavelmente o melhor exemplo disso.

Ele não precisa necessariamente ser o candidato mais popular. Seu grande diferencial é compreender o comportamento dos adversários e antecipar seus movimentos.

Em diversas rodadas, Pariston chega a tomar decisões que parecem prejudicá-lo. Para os outros candidatos, isso parece irracional.

Para ele, porém, faz parte do jogo.

É justamente essa característica que torna o personagem tão interessante dentro de um arco político: Pariston não joga apenas para ganhar a eleição. Ele joga para controlar o próprio processo eleitoral.

E isso muda completamente a leitura das votações.

As primeiras votações

Na primeira rodada, Pariston dispara na frente, com 249 votos. Cheadle aparece em segundo lugar, com 42, enquanto Ickshonpe recebe 26.

Apesar da liderança esmagadora de Pariston, a participação não alcança os 95% exigidos.

Resultado: nova eleição.

Esse detalhe é fundamental para entender o arco. O candidato mais votado não necessariamente vence. Antes de olhar apenas para a quantidade de votos, é preciso verificar se todas as condições da eleição foram cumpridas.

As rodadas seguintes continuam modificando o cenário. Novos candidatos sobem, outros desaparecem da disputa e alguns Hunters passam a evitar o voto por medo das consequências previstas pelas novas regras.

O jogo político fica cada vez maior

Conforme a eleição avança, o arco começa a funcionar quase como uma partida de xadrez.

Cada candidato precisa pensar em:

  • quantos votos possui;
  • quem são seus possíveis aliados;
  • quem pode mudar de posição;
  • quais regras podem ser alteradas;
  • como os demais candidatos irão reagir;
  • e, principalmente, qual é o verdadeiro objetivo de cada adversário.

É justamente aí que Togashi brinca com a ideia de que uma eleição não é necessariamente vencida pelo candidato que simplesmente possui mais apoio.

Em determinados momentos, a interpretação das regras e a capacidade de prever o comportamento dos outros participantes se tornam mais importantes do que a própria campanha.

Leorio entra na disputa e muda completamente o clima

Até então, a eleição estava dominada por candidatos extremamente calculistas.

Então aparece Leorio.

Sua participação é quase um choque de temperatura dentro da história.

Enquanto outros candidatos discutem regras, estratégias e possibilidades futuras, Leorio fala de maneira direta sobre aquilo que realmente importa para ele: salvar Gon.

Quando ele sobe ao palco e fala honestamente sobre não ter conseguido ajudar seu amigo, sua postura conquista os Hunters.

É um dos momentos mais importantes do arco porque demonstra que uma eleição também pode ser influenciada por identificação emocional.

Nem tudo pode ser calculado.

O detalhe genial: a eleição também é uma batalha de informação

Essa talvez seja uma das melhores características do arco.

Os candidatos não possuem as mesmas informações.

Ging sabe coisas que os outros não sabem. Pariston possui seus próprios planos. Cheadle tenta descobrir o que o adversário está planejando. E diversos Hunters sequer compreendem completamente o jogo que está acontecendo diante deles.

Isso aproxima a eleição muito mais de um jogo de estratégia do que de uma simples votação.

E essa característica combina perfeitamente com a maneira como Togashi costuma construir seus conflitos: o personagem mais forte nem sempre é aquele que vence. Muitas vezes, vence quem entende melhor o sistema.

Por que a eleição precisa de tantas rodadas?

Porque a regra da maioria transforma a disputa em um processo eliminatório progressivo.

Se nenhum candidato alcança a maioria necessária, ocorre outra votação. Com o passar das rodadas, candidatos podem abandonar a disputa, perder apoio ou simplesmente deixar de ser relevantes.

O resultado é uma espécie de funil eleitoral.

Começamos com muitos candidatos e terminamos com apenas alguns nomes disputando a presidência.

É diferente do modelo brasileiro de segundo turno, no qual a disputa presidencial chega rapidamente a apenas dois candidatos quando ninguém alcança a maioria absoluta. No caso brasileiro, o segundo turno é realizado entre os dois mais votados.

Em Hunter x Hunter, o processo é muito mais aberto e pode sofrer alterações conforme as regras e as movimentações dos próprios participantes.

O que Pariston realmente queria?

Essa é a pergunta que transforma o arco inteiro.

Pariston demonstra diversas vezes que poderia buscar uma vitória mais direta, mas prefere prolongar a disputa.

Ele parece se divertir com a eleição.

Mais do que ocupar o cargo, seu objetivo é jogar com os outros Hunters e provocar Netero mesmo depois da morte do antigo presidente.

Por isso, sua candidatura funciona de maneira diferente daquilo que esperamos de um político tradicional.

Pariston não está simplesmente tentando chegar ao topo.

Ele quer descobrir até onde consegue controlar o jogo.

O verdadeiro plano por trás da eleição

Enquanto todos estão concentrados nas votações, outra história acontece simultaneamente.

Killua retorna à família Zoldyck para tentar salvar Gon utilizando o poder de Alluka e Nanika.

Esse núcleo acaba se tornando tão importante quanto a própria eleição.

E Togashi usa os dois acontecimentos para criar uma estrutura curiosa: enquanto os Hunters discutem quem deve comandar a Associação, Killua trava uma batalha desesperada para salvar seu melhor amigo.

As duas histórias eventualmente se encontram.

A vitória de Pariston é quase uma derrota

No fim, Pariston consegue aquilo que parecia buscar desde o começo: torna-se o 13º Presidente da Associação Hunter.

Mas existe uma última reviravolta.

Logo depois de vencer, ele anuncia que deixará o cargo e indica Cheadle como sua sucessora.

É a conclusão perfeita para o personagem.

Pariston não queria simplesmente ser presidente.

Ele queria vencer o jogo.

E, quando consegue, deixa o prêmio para outra pessoa.

Hunter x Hunter é uma crítica política?

Não dá para afirmar isso de maneira categórica.

O arco utiliza elementos políticos e eleitorais, mas não há, nas informações disponíveis, uma declaração de Togashi dizendo que a história foi criada como uma crítica específica ao sistema político brasileiro, japonês ou a alguma eleição real.

O que podemos observar é que Togashi constrói um sistema eleitoral fictício extremamente elaborado e o utiliza para explorar temas como poder, manipulação, liderança, participação, regras, estratégia e comportamento coletivo.

E justamente por isso as comparações com sistemas reais são tão divertidas.

Brasil x Japão x Associação Hunter

Elemento Brasil Japão Associação Hunter
Quem vota? Eleitorado habilitado Cidadãos a partir de 18 anos Hunters
Candidatos e eleitores Papéis distintos Papéis distintos Todo Hunter pode ser os dois
Maioria Majoritária absoluta ou simples, conforme o cargo Depende da eleição e da casa legislativa Maioria exigida pelas regras da Associação
Segundo turno Existe para determinadas eleições majoritárias Não corresponde diretamente ao modelo brasileiro para eleição nacional Várias rodadas podem ocorrer
Representação proporcional Usada para deputados e vereadores Também existe, inclusive na Câmara dos Representantes Não é o foco da eleição presidencial Hunter
Participação mínima Não existe regra de 95% para validar a eleição Não funciona dessa forma 95% de participação é exigida

No Brasil, o sistema eleitoral combina mecanismos majoritários e proporcionais. Presidente, governadores, senadores e prefeitos são escolhidos pelo sistema majoritário, enquanto deputados e vereadores são eleitos pelo sistema proporcional.

No Japão, a Câmara dos Representantes combina 289 cadeiras de distritos de um único representante e 176 cadeiras de representação proporcional, mostrando como os dois modelos também podem coexistir dentro de uma mesma estrutura política.

A Associação Hunter, por sua vez, pega algumas dessas ideias de representação e transforma tudo em uma espécie de Battle Royale burocrática, onde o inimigo mais perigoso pode ser justamente aquele que entende melhor as regras.

Por que esse arco é tão diferente de outros em Hunter x Hunter?

O Arco da Eleição mostra que Hunter x Hunter não precisa de uma luta para criar tensão.

Uma votação pode ser tão perigosa quanto uma batalha.

Um discurso pode alterar o resultado de uma disputa. Uma regra aparentemente insignificante pode mudar toda a estratégia. Um candidato pode perder votos justamente por tentar ganhar. E uma pessoa pode vencer a eleição apenas para desistir do cargo imediatamente depois.

Ao mesmo tempo, a história de Killua e Alluka mantém o componente emocional da trama, enquanto a eleição prepara o terreno para a próxima grande etapa da obra.

No fim das contas, o arco não é apenas sobre quem será o 13º presidente da Associação Hunter.

É sobre descobrir quem realmente entende o jogo que está sendo jogado.

Curiosidade: Togashi já tinha tudo na cabeça

Existe uma história curiosa envolvendo a produção desse arco.

Em uma entrevista de 2016 com Masashi Kishimoto, foi revelado que Togashi havia planejado os capítulos publicados entre agosto de 2011 e março de 2012, incluindo os 21 capítulos do Arco da Eleição, em apenas duas semanas.

Segundo o relato, o autor já tinha toda a estrutura em mente e precisava apenas colocá-la no papel. O processo, porém, acabou contribuindo para um episódio de tendinite.

Também foi nesse período que Togashi adotou uma abordagem mais organizada para os designs dos Zodíacos, criando referências visuais para que seus assistentes pudessem trabalhar nos figurinos sem que ele precisasse desenhar cada detalhe pessoalmente.

Conclusão

O Arco da Eleição do 13º Presidente de Hunter x Hunter é um daqueles momentos em que Yoshihiro Togashi pega uma ideia aparentemente simples e transforma em algo muito maior.

Uma eleição vira uma disputa psicológica. As regras viram armas. Os candidatos viram jogadores. E os votos passam a representar muito mais do que simples números.

Comparado ao Brasil, o sistema Hunter lembra principalmente a necessidade de maioria e a possibilidade de novas rodadas. Quando olhamos para o Japão, encontramos um ambiente político que também combina diferentes formas de representação e múltiplos níveis de disputa.

Mas a Associação Hunter adiciona seu próprio ingrediente: caos calculado.

E talvez seja justamente por isso que um arco em que boa parte dos personagens passa tanto tempo simplesmente conversando, votando e fazendo contas consegue ser tão tenso quanto qualquer luta da série.

Porque em Hunter x Hunter, às vezes a batalha mais perigosa é descobrir quem está realmente jogando para ganhar.


E você? O que acha do Arco da Eleição de Hunter x Hunter? Acha que Pariston é um dos personagens mais inteligentes da obra ou prefere a estratégia de Cheadle, Ging ou outro candidato? Conte para a gente nos comentários!

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