Diablo IV no Switch 2: review da Temporada do Legado Infernal

Existem temporadas de Diablo IV que chegam querendo mudar a maneira como jogamos. Outras chegam trazendo uma nova ameaça, um novo sistema ou simplesmente mais uma desculpa para criar outro personagem e voltar para Santuário.

A Temporada do Legado Infernal tem uma proposta um pouco diferente. Ela olha para trás.

Comemorando os 30 anos de Diablo, a Blizzard decidiu transformar boa parte da temporada em uma viagem pela história da franquia. Personagens, lugares, inimigos e até itens que marcaram diferentes capítulos da série voltam para Diablo IV, agora reconstruídos dentro da estrutura atual do jogo.

E jogar tudo isso no Nintendo Switch 2 dá um sabor ainda mais curioso para a experiência. Afinal, depois de anos de Diablo espalhado por PC e consoles, finalmente temos Diablo IV inteiro cabendo na mochila.

Deckard Cain voltou, e Santuário continua precisando de terapia

A história da temporada começa com uma presença que dificilmente poderia ser mais apropriada para uma celebração de Diablo: Deckard Cain.

A alma perdida do velho Horadrim retorna ao Pandemônio e nos coloca diante de três viajantes sombrios ligados aos Males Supremos. A missão nos leva diretamente para encontros com Diablo, Baal e Mefisto, revisitando locais e acontecimentos que fazem parte da memória da franquia.

É uma estrutura que funciona melhor para quem conhece Diablo há algum tempo. Quando o jogo coloca determinados cenários, sons, personagens e referências na nossa frente, existe aquela sensação de reconhecer algo antes mesmo de entender exatamente o que está acontecendo.

Para quem começou em Diablo IV, a temporada funciona como uma espécie de aula prática sobre o passado da franquia. Para quem acompanha Diablo há anos, ela funciona quase como abrir uma caixa velha de jogos e encontrar coisas que você nem lembrava que estavam lá.

E, considerando que estamos falando de uma série com três décadas de história, a Blizzard tinha bastante coisa para procurar nessa caixa.

O passado virou conteúdo jogável

O maior mérito da temporada está justamente em não transformar essa homenagem em uma coleção de referências espalhadas pelo mapa.

Os Pesadelos Despertos recriam locais e confrontos inspirados em diferentes capítulos da franquia, incluindo Diablo I, Hellfire, Diablo II, Diablo III e até Diablo Immortal. Existem versões em formato de masmorra e encontros menores que podem aparecer durante a exploração de Santuário.

Quase vinte chefes também retornam, incluindo nomes como Nihlathak e a Rainha Verme, enquanto personagens conhecidos como Léa reaparecem nesse passeio pela história da série.

Essa é uma diferença importante em relação a simplesmente colocar uma skin retrô no personagem. Aqui, a nostalgia vira atividade. E isso, para mim, é o que faz a temporada funcionar melhor.

Não estou apenas olhando para uma referência de Diablo II. Estou entrando em uma versão recriada daquele universo dentro de Diablo IV, com as ferramentas, progressão e combate que o jogo atual possui.

Os Males Supremos continuam sendo péssimas companhias

A progressão sazonal também gira em torno dos três grandes nomes da franquia. Ao enfrentar os ecos de Diablo, Baal e Mefisto, conseguimos obter Estilhaços do Mal e assumir parte do poder dessas entidades. O problema, como sempre, é que poder demoníaco nunca vem com garantia estendida.

Carregar um desses estilhaços permite avançar por trilhas de reputação específicas, desbloqueando poderes e melhorias relacionados ao Mal Supremo escolhido. A temporada também permite trocar essa escolha posteriormente por meio de recursos obtidos nos desafios mais difíceis.

Isso cria uma camada interessante de progressão porque não estamos apenas correndo atrás de equipamento. Existe uma segunda evolução acontecendo ao redor do personagem, ligada diretamente ao tema da temporada.

É uma estrutura que combina bem com a filosofia atual de Diablo IV: matar demônios, pegar equipamento, melhorar a build e voltar para matar demônios ainda maiores. O ciclo é conhecido. O que muda é o tempero.

Pedra de Jordan, Coroa de Leoric e outros fantasmas do inventário

Se existe uma parte da temporada capaz de despertar imediatamente a memória dos jogadores antigos, são os Únicos de Legado.

São nove itens inspirados em relíquias famosas da história de Diablo. Entre eles estão a Coroa de Leoric, as Braçadeiras de Nêmesis, a Pedra de Jordan e o Lombo de Bovino. Outros equipamentos também chegam para classes específicas.

E aqui existe uma decisão que considero particularmente boa: esses itens não ficam presos apenas à temporada. A Blizzard confirmou que os Únicos de Legado introduzidos nesta temporada passam a fazer parte permanentemente dos Reinos de Temporada e Eterno.

Isso evita aquela sensação de “jogue agora ou nunca mais veja isso”. A temporada celebra o passado, mas pelo menos parte dessa celebração permanece no futuro de Diablo IV.

Jogando Diablo IV no Switch 2: finalmente cabe Santuário na mochila

Agora chegamos à parte que mais me interessa nessa versão: Diablo IV no Nintendo Switch 2 faz sentido.

O console recebeu a Age of Hatred Collection, que reúne o jogo-base e as expansões Vessel of Hatred e Lord of Hatred. A versão também possui cross-play, cross-progression e suporte à tela sensível ao toque para menus, mapa e inventário.

Mas existe uma escolha importante logo no menu: qualidade ou desempenho, algo que os donos de Xbox Series S estão acostumado e sabem bem como isso impacta no game e, quando bem feito, não tem sustos, apenas uma escolha mais cômoda para o momento.

No modo Qualidade, a proposta é 30 fps, com 1080p no portátil e 1440p no modo TV. Já o modo Desempenho mira 40 fps a 1080p nos dois formatos. No modo TV, atingir esses 40 fps exige uma tela compatível com 120 Hz ou mais.

Na prática, a experiência varia bastante.O modo Desempenho passa uma forte sensação de ser claramente superior, especialmente no portátil, observando que o modo de 30 fps apresenta mais dificuldade para manter sua meta. Vale comentar que as grandes concentrações de inimigos podem reduzir a qualidade das animações no modo de desempenho.

E isso pode gerar as incômodas quedas de quadras e, com o game, entregando uma faixa de 20 a 25 fps no modo de qualidade, principalmente durante confrontos mais pesados, enquanto o modo desempenho ficou na casa dos 40 fps, com momentos próximos de 60 e algumas quedas para 25 a 30 fps.

Eu considero isso importante porque Diablo é justamente o tipo de jogo em que fluidez pesa mais do que resolução. Quando a tela começa a encher de demônios, efeitos e números de dano, prefiro sacrificar alguns detalhes visuais a transformar uma carnificina infernal em apresentação de slides.

Por outro lado, existe algo impressionante nessa versão: estamos falando de Diablo IV completo, incluindo as expansões atuais, rodando em um console híbrido. A própria equipe da Blizzard destacou o trabalho de otimização necessário para levar o jogo ao Switch 2.

Não é a versão tecnicamente mais poderosa de Diablo IV. Nem pretende ser. Mas é provavelmente uma das maneiras mais interessantes de jogar Santuário hoje. Ainda mais podendo jogar em qualquer lugar!

O problema que nenhuma build consegue resolver: a conexão

Existe, porém, uma característica do Switch 2 que precisa ser lembrada antes de sair correndo para comprar a coleção: Diablo IV continua sendo um jogo exclusivamente online.

Isso significa que o modo portátil não transforma o jogo em uma experiência offline. Se a conexão cair, você pode ser expulso para a tela inicial até conseguir se conectar novamente. Para quem joga principalmente em casa, provavelmente não será um problema. Para quem imagina Diablo IV como companhia durante qualquer viagem, trem, ônibus ou lugar com internet duvidosa, é uma limitação importante.

E existe outro detalhe desagradável que apareceu nas primeiras semanas da versão Switch 2: jogadores relataram problemas de reconhecimento da licença de Lord of Hatred, fazendo com que conteúdos e variantes de habilidades aparecessem como bloqueados mesmo para quem possuía a coleção correta. Houve múltiplos relatos nos fóruns oficiais, inclusive de jogadores brasileiros.

A Blizzard também publicou posteriormente correções para problemas da temporada e melhorias gerais de estabilidade, performance e visuais. Portanto, vale considerar que a versão está recebendo ajustes enquanto a temporada avança.

Uma temporada que entende o significado de legado

Depois de acompanhar o conteúdo da Temporada do Legado Infernal, minha sensação é que a Blizzard finalmente encontrou uma maneira bastante natural de trabalhar a nostalgia dentro de Diablo IV.

Não é simplesmente pegar personagens antigos e colocá-los em uma vitrine. A temporada transforma pedaços da história da franquia em lugares para visitar, chefes para enfrentar, equipamentos para encontrar e atividades para repetir.

E isso combina muito bem com o próprio conceito de Diablo. Afinal, Santuário sempre foi um lugar onde o passado insiste em voltar para cobrar alguma coisa.

Para mim, o maior destaque é justamente essa mistura entre nostalgia e sistemas atuais. Os jogadores veteranos ganham referências suficientes para reconhecer sua história, enquanto quem chegou agora consegue experimentar parte desse legado sem precisar voltar imediatamente para jogos de décadas atrás.

No Switch 2, essa proposta ganha ainda outro significado. Poder levar toda essa celebração de 30 anos para o modo portátil é uma das maiores virtudes da versão, mesmo com os compromissos técnicos e a necessidade permanente de conexão.

A Temporada do Legado Infernal não é apenas mais uma temporada de Diablo IV. É uma temporada sobre Diablo.

E talvez seja justamente por isso que ela funciona tão bem.

Depois de três décadas, a franquia já tem um estoque gigantesco de demônios, heróis, tragédias, músicas, lugares e itens para revisitar. Dessa vez, a Blizzard decidiu abrir esse baú e espalhar tudo dentro de Santuário.

E eu, particularmente, não vou reclamar de encontrar uma velha Pedra de Jordan no meio da bagunça.

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