Quando fiz a primeira análise de Ghetto Zombies: Graffiti Squad, em fevereiro, o jogo tinha acabado de chegar ao Xbox depois de sua estreia no PC. Naquele momento, já estava claro que a Fogo Games tinha colocado muita personalidade em seu primeiro grande projeto: zumbis, armas absurdas, grafites e uma versão completamente brasileira do apocalipse.
Agora, alguns meses depois, Ghetto Zombies cresceu em alcance. O jogo chegou ao PlayStation 4, PlayStation 5, Nintendo Switch e Nintendo Switch 2, além das versões de Xbox One e Xbox Series X|S. Com isso, também ficou mais fácil enxergar onde o jogo funciona melhor, como o controle influencia a experiência e até onde essa mistura de shooter top-down, hordas de zumbis e cultura da periferia consegue sustentar sua proposta.
E a resposta continua sendo bastante interessante: Ghetto Zombies é um jogo simples, direto e cheio de personalidade. Mas essa simplicidade também revela algumas limitações que ficam mais perceptíveis quanto mais tempo passamos com ele.
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Um apocalipse zumbi com sotaque brasileiro
A premissa continua sendo uma das coisas que mais gosto em Ghetto Zombies. Em vez de colocar o jogador em mais uma cidade genérica infestada de mortos-vivos, a Fogo Games decidiu imaginar como seria um apocalipse visto a partir da quebrada.
A história coloca Fabão, Duda, Kath e Vini no comando do Esquadrão Ghetto Z. Os quatro jovens mutantes precisam sair da Vila Fundinho para enfrentar os zumbis e buscar uma forma de combater a ameaça que tomou conta da cidade.
O jogo não tenta transformar isso em uma história dramática. Pelo contrário. O humor está presente nos personagens, nos diálogos, nos inimigos e principalmente nas armas. A própria ideia de enfrentar um apocalipse usando uma pistola de ketchup, uma arma de balas de goma, uma shotgun com cabeça de tubarão ou uma vassoura de bruxa já deixa claro que aqui a seriedade ficou esperando na fila.
Essa identidade também aparece nos cenários. Casas, ruas, trens, muros, pichações e elementos urbanos ajudam a criar um mundo que reconhecemos, mesmo quando tudo está tomado por zumbis. Segundo a própria Fogo Games, vários dos grafites presentes no jogo foram inspirados em artes reais vistas nos muros de São Paulo.
Grafite virou gatilho para uma horda
A mecânica central de Ghetto Zombies é bastante simples: você precisa grafitar determinados pontos do cenário para avançar.
O problema é que, aparentemente, os zumbis não gostam muito de arte urbana.
Cada grafite pode desencadear uma nova horda, transformando uma atividade aparentemente tranquila em uma pequena guerra. Depois de completar os grafites necessários, conseguimos uma chave que permite avançar para a próxima área. Algumas dessas regiões ainda escondem confrontos contra chefes.
É uma ideia simples, mas funciona porque transforma o próprio objetivo da fase em parte do combate. Você não está apenas andando pelo mapa procurando inimigos. Está escolhendo quando ativar o próximo problema.
O jogo também utiliza lixões espalhados pelas áreas para oferecer novas armas, itens e recursos. Os inimigos deixam estrelas quando derrotados, e elas ajudam a acessar esses pontos e evoluir os personagens.
Quatro personagens, quatro maneiras de enfrentar os zumbis
Os quatro integrantes do Esquadrão Ghetto Z possuem atributos diferentes. Alguns são mais rápidos, outros têm mais resistência ou poder de ataque, criando pequenas mudanças na maneira como cada personagem encara as hordas.
Essa diferença não transforma o jogo em algo completamente diferente dependendo da escolha, mas é suficiente para criar preferências. Durante minha experiência original, já havia percebido que determinados personagens se adaptavam melhor ao meu estilo, principalmente quando a quantidade de inimigos começava a aumentar.
O sistema de evolução permite melhorar atributos como ataque, vitalidade, agilidade e outros recursos do personagem. A ideia é simples: jogar, conseguir experiência, evoluir e tentar ficar mais preparado para as áreas seguintes.
O problema é que essa progressão poderia ser mais impactante. Há uma sensação de evolução, mas algumas melhorias não produzem uma diferença tão perceptível quanto seria desejável. Uma análise posterior realizada no PS5 também apontou essa questão, observando que determinados aumentos de atributos não apresentavam um impacto muito evidente durante a partida.
O arsenal é onde Ghetto Zombies realmente se diverte
Se existe uma área em que a criatividade da Fogo Games aparece sem pedir licença, é no arsenal. O jogo possui mais de 60 armas, chegando a mais de 70 variações quando consideramos versões especiais. Existe uma mistura de armas convencionais com equipamentos completamente absurdos, cada um com comportamento próprio.
É algo que muda bastante o ritmo das partidas. Uma arma pode ser excelente para lidar com uma horda, enquanto outra funciona melhor contra inimigos específicos. A possibilidade de encontrar equipamentos diferentes nos lixões também cria aquele pequeno momento de expectativa: “o que será que veio dessa vez?”
Por outro lado, algumas armas possuem recargas bastante demoradas. Em momentos de maior pressão, isso pode quebrar o ritmo do combate e obrigar o jogador a trocar rapidamente de equipamento. Essa é uma escolha que acrescenta estratégia, mas também pode causar algumas situações frustrantes.
Atirar no controle é diferente
Esse foi um ponto que já havia destacado na primeira análise e que merece ainda mais atenção agora que o jogo está espalhado por praticamente todas as plataformas.
Ghetto Zombies funciona melhor no teclado e mouse. A mira é mais direta e permite responder com maior precisão quando uma quantidade absurda de zumbis começa a fechar o cerco.
No controle, a experiência é perfeitamente jogável, mas exige uma adaptação maior. Na minha experiência original, senti a mira mais desafiadora no controle e precisei me virar para encontrar a melhor maneira de lidar com ela. A sensação se manteve com uma melhora leve.
Isso ganha importância justamente porque headshots fazem diferença. A própria equipe recomenda segurar o botão de mira até que ela fique vermelha para aumentar a possibilidade de acertos críticos e headshots.
Ou seja, não estamos falando apenas de apontar aproximadamente para o inimigo. A precisão pode determinar a velocidade com que uma horda será eliminada.
E como ficaram as versões de console?
Xbox One e Xbox Series X|S
Foi no Xbox que Ghetto Zombies ganhou sua primeira experiência de console, chegando ao Xbox One e Xbox Series X|S em fevereiro de 2026. O jogo também é Xbox Play Anywhere, permitindo comprar uma única versão e continuar a experiência entre console e PC, com progresso compartilhado.
A versão recebeu otimizações específicas para o ambiente Xbox. A equipe responsável pela adaptação afirma ter trabalhado no sistema de salvamento, conquistas e otimizações para garantir desempenho estável também no Xbox One. O jogo ainda é otimizado para Xbox Series X|S e possui Smart Delivery.
No Series X|S, a combinação entre carregamento rápido, controle e visual pixelado deixa a experiência bastante confortável. Já no Xbox One, o mais importante é que a adaptação não abandonou o hardware mais antigo e recebeu trabalho específico de otimização.
PlayStation 4 e PlayStation 5
As versões de PlayStation chegaram em 27 de agosto, levando o jogo para PS4 e PS5. A versão de PS5 mantém a proposta visual e a jogabilidade do original, sem tentar reinventar a experiência para a nova geração.
Uma análise realizada no PS5 Pro classificou o desempenho com nota 8/10, destacando a estabilidade da experiência, enquanto apontou problemas maiores em outras áreas, como repetição de objetivos, chefes e evolução.
Na prática, isso combina com a proposta do jogo. Ghetto Zombies não é um título tecnicamente pesado que exige um console de nova geração para funcionar. O ganho do PS5 está muito mais na experiência confortável da plataforma do que em uma transformação gráfica radical.
Nintendo Switch e Switch 2
Essa é provavelmente a versão que mais muda a relação com o jogo. Ghetto Zombies chegou ao Nintendo Switch em 27 de agosto e também é compatível com o Switch 2. A própria Nintendo informa que o comportamento do jogo no Switch 2 é consistente com o Nintendo Switch original.
O jogo ocupa apenas 430 MB e pode ser aproveitado nos modos TV, semiportátil e portátil. Também há suporte a português brasileiro.
É justamente no portátil que a proposta de Ghetto Zombies combina muito bem com o console. As partidas são diretas, a estrutura é simples de entender e a estética em pixel art funciona naturalmente na tela menor. Uma análise da versão Switch também destacou que o modo portátil combina particularmente bem com a proposta de partidas rápidas do jogo.
Não há indicação oficial de um modo de desempenho específico ou de uma taxa de quadros diferenciada no Switch 2. Por isso, não dá para afirmar que a nova versão oferece 60 fps ou algum salto técnico específico. O que temos oficialmente é a confirmação de compatibilidade e comportamento consistente entre as duas gerações.
O desempenho é melhor do que o tamanho sugere
Ghetto Zombies nunca foi um jogo que pretendesse impressionar pelo peso tecnológico. A proposta visual em pixel art, os cenários relativamente compactos e o tamanho reduzido ajudam bastante nesse sentido.
No PC, os requisitos mínimos são bastante modestos, com 6 GB de RAM e Intel HD Graphics 650 entre as especificações mínimas.
Nos consoles, o trabalho de adaptação acabou sendo mais importante do que simplesmente aumentar resolução ou efeitos. O Xbox recebeu otimizações específicas para garantir estabilidade inclusive no Xbox One, enquanto PS5 e Switch oferecem versões que preservam a identidade visual sem exigir um hardware de nova geração para fazer o jogo funcionar.
Também vale lembrar que o estúdio corrigiu problemas de progressão e salvamento durante o desenvolvimento, além de implementar melhorias gerais de desempenho e ajustes em chefes, armas, personagens e inimigos.
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O grande problema: repetir também faz parte da experiência
Depois de algumas horas, a fórmula começa a mostrar suas limitações. Grafitar uma parede, enfrentar uma horda, conseguir uma chave, procurar o próximo ponto e repetir. É uma estrutura que funciona muito bem no começo, mas poderia receber mais variações conforme a campanha avança.
É uma pena porque o universo criado pela Fogo Games permite muito mais. Se os cenários pudessem aproveitar mais verticalidade, entrar em construções, explorar diferentes objetivos ou alterar a maneira como as hordas aparecem, o mesmo arsenal poderia ganhar ainda mais espaço para brilhar.
Cadê o multiplayer?
Essa talvez seja a pergunta mais fácil de fazer depois de jogar Ghetto Zombies.
O jogo tem cara de experiência cooperativa. Quatro personagens diferentes, armas absurdas, hordas enormes, humor, grafites e uma estética que parece ter sido feita para quatro pessoas sentadas no sofá gritando “olha esse zumbi!”.
Mas Ghetto Zombies: Graffiti Squad é uma experiência para um jogador. Não existe cooperação local ou online.
A própria divulgação inicial utilizou a ideia de ação cooperativa ao apresentar o conceito, mas as versões lançadas mantêm o jogo como experiência solo.
E aqui existe um potencial enorme desperdiçado. Não porque o jogo seja ruim sozinho, mas porque consigo imaginar facilmente como essa mesma estrutura poderia funcionar com os quatro personagens atuando juntos.
O Brasil continua sendo o maior diferencial
Mesmo com todas essas limitações, existe algo que Ghetto Zombies faz que muitos jogos não conseguem: ele tem personalidade.
Não é simplesmente um jogo de zumbis com algumas referências brasileiras colocadas por cima. A identidade está nos personagens, nos cenários, nos grafites, na música e na maneira como a quebrada é representada.
A Fogo Games parte de uma visão bastante específica: imaginar a periferia não como um lugar condenado ao sofrimento, mas como o espaço de onde pode surgir a salvação do mundo. É uma inversão interessante dos clichês normalmente associados a esse cenário e ajuda a explicar por que o jogo consegue chamar atenção mesmo quando sua estrutura é bastante simples.
É essa identidade que faz Ghetto Zombies permanecer na memória depois que a novidade das armas malucas passa.
Vale a pena jogar Ghetto Zombies: Graffiti Squad?
Ghetto Zombies: Graffiti Squad continua sendo uma experiência divertida, compacta e cheia de personalidade. A chegada aos consoles amplia bastante o público e mostra que a proposta da Fogo Games funciona em diferentes formatos, especialmente no Xbox, onde existe Play Anywhere, e no Switch, onde o portátil combina naturalmente com partidas rápidas.
O gameplay é simples de aprender, mas exige atenção quando as hordas aumentam. O arsenal é criativo, os personagens possuem diferenças interessantes e a ideia de transformar grafite em gatilho para uma invasão zumbi continua sendo uma das melhores sacadas do jogo.
Ao mesmo tempo, a repetição dos objetivos, a ausência de multiplayer e algumas limitações na evolução e no level design impedem que a experiência alcance todo o potencial que sua proposta sugere. O jogo apresenta uma quantidade enorme de armas, mas nem sempre oferece situações suficientemente variadas para explorar tudo que esse arsenal tem a oferecer.
Para quem quer conhecer um indie brasileiro com identidade própria, Ghetto Zombies merece atenção. Para quem procura uma campanha longa, cheia de mudanças mecânicas e conteúdo cooperativo, é melhor saber exatamente o que está comprando.
No fim das contas, continuo enxergando Ghetto Zombies como aquele jogo que coloca um sorriso no rosto justamente porque não tem medo de ser estranho. Uma pistola de ketchup aqui, uma vassoura ali, um zumbi de cueca aparecendo no caminho e, quando você percebe, está tentando salvar a quebrada enquanto pinta um muro no meio do apocalipse.
É simples? Bastante. É repetitivo? Em alguns momentos, sim. Mas também é brasileiro, criativo e tem uma identidade que não parece fabricada para seguir uma tendência.




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