Review: Dystopicon, um game onde a primeira partida prepara você para a próxima

Tem jogo que apresenta todas as suas cartas logo nos primeiros minutos. Dystopicon prefere entregar algumas, esconder outras e deixar você descobrir, provavelmente da maneira menos confortável possível, que suas escolhas têm consequências. Na primeira partida, a sensação é de estar tentando entender as regras de uma sociedade que já decidiu como você deve viver. O mais interessante é que, depois de sobreviver a esse primeiro ciclo, você começa a perceber que não jogou apenas para chegar ao final. Jogou para aprender como o sistema funciona.

O que é Dystopicon?

Desenvolvido pela Palitroque, Dystopicon é um simulador de vida e gerenciamento de tempo ambientado em uma sociedade distópica onde os robôs substituíram boa parte do trabalho humano. Seu novo emprego, ironicamente, é assistir televisão para ganhar dinheiro.

Leia também: Succubi Domini é anunciado

Dentro de um pequeno apartamento, você precisa administrar recursos, necessidades e serviços enquanto tenta sobreviver dentro das regras estabelecidas pelo governo. Parece simples até perceber que praticamente tudo consome alguma coisa, e cada decisão pode comprometer a próxima.

A proposta mistura gerenciamento, escolhas narrativas, humor ácido e múltiplos finais. E existe uma pergunta rondando a experiência inteira: você vai ser um cidadão exemplar ou começar a questionar o sistema?

A primeira partida: aprendendo a sobreviver

Minha principal impressão com a primeira partida é que Dystopicon não quer que você saiba jogar perfeitamente de imediato. E isso é importante.

No começo, é fácil gastar recursos sem perceber o quanto eles serão necessários depois. Você observa televisão para conseguir dinheiro, utiliza serviços para atender suas necessidades e precisa administrar o tempo disponível. O problema é que sempre existe alguma coisa querendo consumir seu dinheiro, seu tempo ou sua atenção.

A primeira tentativa acaba funcionando quase como um tutorial disfarçado. Você começa a entender quais necessidades precisam ser priorizadas, quais atividades podem esperar e como pequenas decisões aparentemente inofensivas podem alterar o restante do dia.

É nesse ponto que o jogo começa a ficar interessante. Depois de entender o básico, você percebe que não precisa simplesmente obedecer ao ciclo apresentado. Existe espaço para experimentar, investigar e procurar outras possibilidades.

Quando a segunda partida começa antes mesmo de terminar a primeira

O grande mérito de Dystopicon está justamente nessa sensação de "agora eu sei o que deveria ter feito".

Durante a primeira partida, você aprende pela necessidade. Na seguinte, começa a utilizar esse conhecimento de maneira consciente. Aquilo que parecia uma escolha aleatória passa a fazer parte de uma estratégia.

Isso muda completamente a maneira de enxergar o apartamento. O ambiente deixa de ser apenas o lugar onde a história acontece e passa a ser praticamente um pequeno tabuleiro de decisões. Você começa a pensar no que fazer agora, no que guardar para depois e, principalmente, no que vale a pena investigar.

O próprio desenvolvedor descreve essa contradição como uma liberdade de escolha dentro de um sistema que o jogador não pode alterar. Você pode otimizar o ciclo, mas não necessariamente quebrar as regras que criam a escassez.

E é justamente essa ideia que faz a primeira jogada ter tanto valor para as seguintes.

Leia também: Temporada 4 do Overwatch já está disponível

Curiosidade também é um recurso

Uma das coisas que mais combinam com a proposta de Dystopicon é a forma como a curiosidade pode colocar o jogador em situações inesperadas.

O jogo não trata necessariamente a exploração como uma atividade gratuita. Investigar demais pode trazer consequências, enquanto simplesmente seguir as recomendações do sistema pode ser mais seguro. O problema é que jogar pelo caminho seguro também significa deixar de descobrir algumas coisas.

É aqui que entram as diferentes possibilidades de abordagem. Você pode tentar ser o cidadão perfeito, seguir as regras e administrar sua vida da maneira mais eficiente possível. Ou pode começar a fazer perguntas, testar limites e descobrir até onde o sistema permite que você vá.

Essa filosofia também aparece nos diferentes finais. A demo já apresentava um cenário principal, uma possibilidade secreta e um modo de desafio, enquanto a versão final amplia a estrutura com mais salas, mecânicas, missões secundárias e histórias escondidas.

O que a primeira partida realmente ensina?

Mais do que ensinar os comandos, Dystopicon ensina a ler o próprio sistema.

Depois da primeira tentativa, você começa a perceber padrões. Aprende a administrar melhor seus recursos, entende quais ações podem ser adiadas e passa a prestar atenção em detalhes que anteriormente pareciam decoração ou simples humor.

Essa mudança é importante porque transforma as partidas seguintes. Você deixa de reagir aos problemas e começa a antecipá-los.

E existe uma satisfação peculiar nisso. Não é aquela sensação tradicional de ficar cada vez mais poderoso. Você simplesmente fica melhor em sobreviver dentro de uma estrutura que continua tentando dificultar sua vida.

Uma distopia que funciona melhor quando você experimenta

O humor de Dystopicon é bastante presente, mas a ideia por trás dele é mais séria do que a apresentação inicialmente sugere. O governo não precisa necessariamente apontar uma arma para você. Ele oferece serviços, define incentivos e apresenta tudo como algo feito para o seu próprio bem.

É uma forma interessante de construir a sátira porque o desconforto não vem apenas do que os personagens dizem. Ele está presente nas próprias regras que organizam a rotina.

Nem todo jogador vai comprar completamente essa proposta. A recepção crítica inicial foi bastante dividida, com avaliações destacando tanto o potencial da sátira quanto críticas à profundidade e ao ritmo da experiência.

Para mim, porém, é justamente a possibilidade de experimentar e voltar sabendo mais que dá sentido ao conceito. A primeira partida apresenta o problema. As seguintes permitem testar as brechas e o canal de filme pornográficos diz muitas coisas sem dizer nada.

Vale a pena jogar Dystopicon?

Dystopicon funciona melhor para quem gosta de descobrir sistemas por tentativa e erro. Se você espera uma experiência linear em que todas as respostas aparecem naturalmente, talvez a proposta pareça limitada. Mas se gosta de jogos em que uma primeira partida serve para preparar a próxima, existe uma ideia interessante aqui.

O mais legal é que aprender a jogar não significa necessariamente encontrar uma única estratégia perfeita. Significa entender como aquele pequeno mundo funciona e decidir o que você quer fazer com esse conhecimento.

Leia também: Biografia - Magik (Marvel)

Por isso, minha recomendação é não julgar Dystopicon apenas pelo resultado da primeira partida. Ela é importante justamente porque provavelmente vai terminar deixando algumas perguntas na cabeça. O que eu poderia ter feito diferente? O que acontece se eu ignorar aquela regra? E se, na próxima vez, eu simplesmente resolver ser um péssimo cidadão?

Talvez seja essa a verdadeira brincadeira de Dystopicon. A primeira partida ensina a sobreviver. A segunda começa quando você percebe que já entendeu as regras o suficiente para tentar quebrá-las e as demais já te colocaram na buscas de todos os finais que o jogo pode entregar.

Postar um comentário

0 Comentários